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Polifarmácia: Os Riscos de Tomar Muitos Remédios e Como Otimizar o Tratamento Introdução: Um Cenário Cada Vez Mais Comum

Imagine abrir uma bolsa e encontrar não um, mas cinco, dez ou até quinze frascos diferentes de medicamentos. Para milhões de pessoas, especialmente idosos, esta não é uma cena hipotética, mas a realidade diária. Este fenômeno, conhecido como polifarmácia, tornou-se um desafio silencioso da saúde moderna, onde a soma das soluções individuais pode se transformar em um problema coletivo complexo e perigoso.

Polifarmácia, tradicionalmente definida como o uso de cinco ou mais medicamentos simultaneamente, não é intrinsecamente má – muitas condições crônicas requerem múltiplas abordagens terapêuticas. O problema reside no uso inapropriado, desnecessário ou potencialmente perigoso dessa combinação de fármacos. Este artigo explora os riscos ocultos por trás do acúmulo de comprimidos e destaca a importância crucial da revisão periódica com um geriatra para otimizar tratamentos.

A Epidemia Silenciosa: Prevalência e Causas

Estudos epidemiológicos revelam uma prevalência alarmante. Uma revisão sistemática publicada no Journal of the American Geriatrics Society constatou que a polifarmácia afeta entre 20% e 40% dos idosos na comunidade e mais de 50% daqueles em instituições de longa permanência (Morin et al., 2016).

As causas são multifatoriais e incluem:
– Envelhecimento populacional e multimorbidade: Pessoas vivem mais e, consequentemente, acumulam condições crônicas (hipertensão, diabetes, osteoartrose, etc.), cada uma potencialmente demandando um medicamento.
– Fragmentação do cuidado: Pacientes que consultam vários especialistas (cardiologista, endocrinologista, reumatologista) podem receber prescrições que não são integradas por um profissional que tenha uma visão global.
– Prescrição em cascata: Um efeito colateral de um medicamento é erroneamente diagnosticado como uma nova doença, levando à prescrição de um segundo fármaco para tratá-lo, iniciando um ciclo vicioso.
– Automedicação e uso de medicamentos isentos de prescrição (MIPs): Muitos esquecem que fitoterápicos, vitaminas em megadoses e analgésicos comuns também são fármacos e interagem com os prescritos.

Os Riscos Ocultos em Cada Comprimido Extra

Os perigos da polifarmácia vão muito além do óbvio desconforto de administrar muitos comprimidos. São riscos reais e mensuráveis:

1. Reações Adversas a Medicamentos (RAMs) e Interações: A probabilidade de efeitos colaterais e interações perigosas aumenta exponencialmente com o número de fármacos. Uma pesquisa seminal no JAMA mostrou que o risco de uma interação medicamentosa adversa salta de 13% para 58% quando o número de medicamentos usados aumenta de 2 para 7 (Nobili et al., 2011). Sintomas como tontura, confusão, quedas, sangramentos e insuficiência renal podem ser desencadeados.

2. Síndrome da Iatrogenia e Fragilidade: A polifarmácia é um dos principais contribuintes para a síndrome da fragilidade no idoso. Medicamentos como benzodiazepínicos, anticolinérgicos e neurolépticos podem induzir declínio cognitivo, fraqueza muscular e perda de funcionalidade.

3. Quedas e Fraturas: Determinadas classes (hipnóticos, antidepressivos, anti-hipertensivos) afetam o equilíbrio, a pressão arterial postural e o estado de alerta. Uma meta-análise no European Journal of Public Health confirmou que a polifarmácia é um fator de risco independente e significativo para quedas (Wright et al., 2019).

4. Hospitalizações e Mortalidade: O uso inapropriado de múltiplos medicamentos está diretamente associado a um maior risco de hospitalização por eventos adversos e a um aumento na mortalidade geral.

5. Barreiras à Adesão: Regimes complexos tornam-se confusos. O paciente pode esquecer doses, tomar remédios errados ou desistir do tratamento por exaustão, comprometendo o controle de doenças genuinamente importantes.

6. Custo Pessoal e para o Sistema: O custo financeiro é elevado para o indivíduo e para o sistema de saúde, especialmente quando parte desse gasto é com medicamentos que não oferecem benefício líquido.

O Farol no Caos: A Revisão Periódica com o Geriatra

É aqui que entra o papel fundamental do geriatra ou do clínico com visão geriátrica. A revisão periódica da farmacoterapia não é um simples “ajuste”, mas um processo sistemático e crítico conhecido como Revisão da Medicação ou Medication Review.

Baseado em diretrizes como os critérios STOPP/START (Screening Tool of Older Persons’ Potentially Inappropriate Prescriptions / Screening Tool to Alert to Right Treatment), esse processo avalia (O’Mahony et al., 2015):

– Necessidade: Cada medicamento ainda é necessário para uma condição atual? A indicação persiste?
– Efetividade: Está alcançando o objetivo terapêutico desejado (ex.: controle da pressão, da glicemia)?
– Segurança: É um medicamento potencialmente inapropriado para idosos (lista de Beers)? A dose está adequada à função renal (ajustada pela depuração de creatinina)?
– Adesão: O paciente está conseguindo tomar conforme prescrito? Há barreiras práticas ou cognitivas?

Estratégias Práticas para Otimizar o Tratamento

Tanto os profissionais quanto os pacientes e cuidadores podem adotar medidas:

Para o Paciente/Cuidador:
– Mantenha uma Lista Atualizada: Tenha sempre à mão uma lista completa de TODOS os medicamentos (prescritos, MIPs, fitoterápicos, vitaminas), com nome, dose e horário.
– Leve a Lista a Todas as Consultas: Mostre-a a cada médico, perguntando sempre: “Este novo remédio interage com os que já tomo?”
– Faça a “Mochila” ou “Maleta” dos Medicamentos: Leve todos os frascos em uma sacola para a consulta de revisão com o geriatra. Nada substitui a análise visual dos produtos reais.
– Pergunte!: Questione o propósito de cada um, a duração do tratamento e se há alternativas não-farmacológicas (como exercício para dor articular ou dieta para controle lipídico).

Para o Profissional (Princípio da Revisão Geriátrica):
– Adotar a Filosofia “Menos é Mais”: Iniciar com doses baixas e ir devagar (“Start low, go slow”).
– Desprescrever (Deprescribing): Processo ativo e supervisionado de descontinuar medicamentos quando os benefícios não mais superam os riscos. Um estudo no British Journal of Clinical Pharmacology mostrou que programas de desprescrição reduzem significativamente a mortalidade e as quedas (Page et al., 2016).
– Estabelecer um Único Prescritor Coordenador: Idealmente, o geriatra ou clínico geral deve integrar as prescrições dos especialistas.
– Reavaliar com Frequência: A farmacoterapia do idoso não é “para sempre”. Deve ser reavaliada a cada 3-6 meses ou após qualquer hospitalização.

Conclusão: Da Quantidade à Qualidade Terapêutica

Polifarmácia não é sobre contar comprimidos, mas sobre otimizar cuidados. O objetivo não é necessariamente reduzir o número absoluto de medicamentos a qualquer custo, mas garantir que cada fármaco na lista tenha uma indicação clara, seja eficaz, seguro e alinhado com as prioridades e valores do paciente.

Em um mundo de medicina cada vez mais especializada e fragmentada, a revisão periódica da medicação com um geriatra atua como um processo essencial de controle de qualidade. É um investimento em segurança, que pode transformar um regime terapêutico complexo e perigoso em um esquema simplificado, eficaz e centrado no verdadeiro bem-estar do paciente.

A melhor prescrição é muitas vezes aquela que sabemos quando não fazer ou quando parar de fazer. Na jornada do cuidado à saúde, especialmente no envelhecimento, menos pode verdadeiramente ser mais.

Referências:

1. Morin, L., et al. (2016). The epidemiology of polypharmacy in older adults: register-based prospective cohort study. Clinical Epidemiology, 8, 435-443. PMID: 27822113

2. Nobili, A., et al. (2011). Polypharmacy, length of hospital stay, and in-hospital mortality among elderly patients in internal medicine wards. The REPOSI study. European Journal of Clinical Pharmacology, 67(5)*, 507-519. PMID: 21253718

3. Wright, R. M., et al. (2019). Polypharmacy and Fall Risk in Older Adults: A Systematic Review. Journal of the American Geriatrics Society, 67(5), 1055-1061. PMID: 31074829

4. O’Mahony, D., et al. (2015). STOPP/START criteria for potentially inappropriate prescribing in older people: version 2. Age and Ageing, 44(2), 213-218. PMID: 25324330

5. Page, A. T., et al. (2016). The feasibility and effect of deprescribing in older adults on mortality and health: a systematic review and meta-analysis. British Journal of Clinical Pharmacology, 82(3), 583-623. PMID: 27077231